"Um dia fui átomo, hoje, sou pensamento!" Quem diz isso não é o autor: é o narrador desta história, e ele estava lá desde o começo.
A origem da vida costuma chegar ao leitor em duas versões que não conversam entre si. De um lado, o compêndio científico, com suas eras geológicas, fórmulas e cadeias de carbono. De outro, o texto devocional, que responde ao mistério sem olhar para a matéria. Quem quer entender de onde viemos acaba obrigado a escolher um lado e a perder metade da resposta.
A Incrível História Evolutiva da Terra: O Coacervado recusa essa escolha. Euler Barbosa da Silva entrega a narrativa a um coacervado, o aglomerado de aminoácidos levado à deriva pelas águas mornas e salgadas do oceano de outrora, e o acompanha desde o pequenino planeta de crosta primitiva, de trovões ensurdecedores, odores sulfúricos e explosões vulcânicas, até a consciência do homem. Pelo caminho estão os raios ultravioleta, o gás carbônico, o metano, os Ésteres da Era Proterozoica, os vírus e as bactérias, as algas, os vegetais, os animais. Até o oxigênio ganha voz: "Sim. E não sou combustível. Isto é, eu não me queimo. Faço Queimar!"
A força do livro está na costura. Em 160 páginas, o autor condensa a intertextualidade entre Ciências, Filosofia, História, Biologia, Física e Química, apoiado em Teilhard de Chardin, fonte e inspiração declaradas, e em diálogo com o Pálido Ponto Azul de Carl Sagan, com Espinosa, Einstein, Thomas Hobbes, Sérgio Buarque de Holanda e Moisés Maimônides. Reconhecido na apresentação da obra por sua capacitação cultural e científica e pelo domínio raro do idioma, Barbosa escreve em prosa poética fluente e elegante, sem transformar a erudição em barreira.
O arremate não fica na biologia. O texto adentra a dimensão humana, a dualidade de corpo e alma, a única espécie consciente da própria finitude, e chega ao Homem Cordial e a uma convicção simples: "A mão deve ser estendida a todos."
Se você já se perguntou como o átomo virou pensamento, este livro conta a viagem inteira. Comece pelo começo do mundo.